não esquecer
- 4 de set. de 2023
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Atualizado: 7 de mai.
não esquecer
comecei a escrever este texto com a palavra “sonhei” e, na verdade, parece algo do campo dos sonhos mesmo.
o fato é que, outro dia, meu irmão me enviou uma caixa com alguns objetos pequenos dos meus pais que ainda restavam. não me lembro de ele ter dito que enviaria naquela semana e nem do que enviaria. a caixa grande chegou de surpresa, e quando a abri, dentro dela, vi vislumbres da beleza dos objetos que eu aguardava saudosa, tentando reconhecer a vivacidade na presença deles em mim e na memória. junto, vieram outras coisas que não sei exatamente por que ele enviou, mas acredito que tenha sido uma forma de deixar a decisão para mim de manter, ou não, o que eu desejasse.
um dos objetos não esperados era uma câmera analógica de minha mãe. impecável, como era de se esperar de tudo que vinha dela, com um filme dentro, e o marcador de fotos batidas mostrava o número 31. a imaginação me levou a diversas aberturas da memória e às histórias que vivi junto dos meus pais e daquela câmera. talvez eu tenha inventado algumas lembranças, mas foi bonito imaginar.
há algo estranho nas fotografias analógicas. elas parecem existir num lugar entre a prova e o desaparecimento. como se cada imagem dissesse como um sussurro: isso aconteceu, isso esteve aqui. fiquei pensando que talvez seja por isso que minha mãe fotografava tanto. talvez fotografar fosse sua maneira silenciosa de lutar contra o esquecimento, de segurar o tempo pelas bordas antes que ele escorresse.
no mesmo dia, levei a câmera ao laboratório de fotos para assegurar que o filme sairia, pelo menos, inteiro. um lado meu sabia que nada poderia sair, afinal, essa é uma das bonitezas do filme analógico.
muito ou nada.
e veio o muito.
todas as 31 fotos saíram, com a data de 2008. era uma viagem dos meus pais para o MS, mais uma de pescaria. nas fotos, minha mãe, meu pai, minha avó, e um tanto de gente que já não está mais aqui como eles e outras tantas.
o choro veio com tanta intensidade que não sei se consegui realmente ver todas as fotos, pois os olhinhos ficam marejados só de lembrar.
acho que existe uma espécie de ferida mansa em certas imagens. alguma coisa que corta o corpo antes mesmo de virar palavra. uma mesa improvisada de beira de rio, o jeito que alguém sorri sem perceber que está sendo fotografado, uma camiseta antiga, um galho enroscado junto de uma artimanha pra desenroscar, um céu azul de um dia comum de 2008. pequeninos gestos e detalhes que carregam um mundo, talvez o meu mundo, inteiro dentro.
minha mãe me deu minha primeira câmera analógica, e eu tinha esquecido disso. ela, que quase sempre estava atrás das câmeras, buscava guardar cada instante. agora penso que talvez ela também estivesse tentando deixar rastros. pequenas provas de afeto espalhadas pelo que vinha por aí. de certa forma, preparando, sem saber, uma forma de continuar conversando com quem fica.
olhar essas fotos tantos anos depois foi entender que os arquivos de família também respiram. ficam adormecidos dentro de caixas, armários e gavetas esperando o momento de voltar a tocar alguém. e quando voltam, já não pertencem só ao ontem. passam a ocupar um outro lugar, entre lembrança, invenção e saudade.
sigo aqui, tentando não esquecer. talvez porque amar alguém também seja isso: continuar oferecendo presença ao que o tempo insiste em transformar em ausência.






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